Papeando com ex-alunos que ingressaram no curso de design gráfico da Universidade Federal de Sergipe, percebi o quão recorrentes eram as seguintes falas:

– Disseram que vou morrer de fome se resolver trabalhar com isso.

– Meu pai quer que eu tente outro vestibular no próximo ano para um curso que garanta meu futuro e conforto financeiro.

– Estou fazendo ao mesmo tempo design e arquitetura. Não sei ainda em qual curso devo seguir.

Quando esses temas vêm a tona na sala de aula ou nos corredores da universidade, o que é supernatural, sempre abordo a questão a partir da minha trajetória como designer, pois acredito no poder do testemunho sincero e sem floreios (nu e cru muitas vezes, eu sei).

Pois então segue ele em sua versão escrita:

Desde sempre gostei de desenhar. Lembro que comecei a tomar gosto pela coisa depois que meus pais compraram um pequeno quadro negro para auxiliar a mim e a meus irmãos nos deveres escolares. Eu o preenchia seguidamente com figuras abstratas, cenas de um filme recém assistido ou personagens “cartunizados” riscados com gizes multicoloridos.

Mas foi na adolescência que o ato de desenhar se tornou uma obrigação e não somente um hobby. Os colegas da escola pediam frequentemente que desenhasse as capas de seus trabalhos, o mascote dos jogos escolares, os cartazes da feira de ciências ou a caricatura de professores e personalidades conhecidas (essas sempre faziam sucesso).

Itamar Franco, João Paulo II e Pelé. Desenhos a grafite realizados em 1998.

Se na escola o desenho era realizado com uma certa carga de imposição, em casa eu tinha a chance de soltar os freios da imaginação. Criava ETs e os descrevia a partir de textos compostos na então novíssima máquina de datilografar Olivetti, acompanhados por desenhos a caneta esferográfica ou grafite; projetava submarinos e naves espaciais enriquecendo-os com a descrição de suas partes internas e incluindo complexas carenagens; reproduzia cartazes de filmes com lápis de cor, caneta esferográfica, giz de cera, cartolina ou papel paraná; desenhava histórias em quadrinhos cujos temas poderiam brotar tanto de uma aula de história quanto do último blockbuster de Spielberg.

Quadrinhos: Sir e Um Filme Muito Estranho. DeLorean do filme Back To The Future. Desenhos realizados a grafite.

Tempo bom, aquele.

Então chegou o dia do teste vocacional. Teci essa mesma retrospectiva para a psicóloga acrescentando o fato de que queria estudar algo que pudesse tornar o dia a dia de minha mãe nos afazeres domésticos menos difícil. Hoje sei que o resultado mais obvio seria ter escolhido o design de produtos, mas naquela época deu arquitetura na cabeça. E lá fui eu estudar arquitetura e urbanismo na Universidade Federal de Pernambuco em 1997.

Os primeiros semestres do curso foram ótimos! Trago daqueles dias minhas primeiras experiências com desenhos vetoriais e sólidos 3D em ambientes computacionais; o deleite em conhecer a história da arte e seus grandes expoentes; o prazer de esculpir pirâmides de argila ou lixar cúpulas de gesso para composição de maquetes; o esforço ao tentar decompor as várias faces de um objeto nos desenhos de geometria descritiva.

Porém, a despeito desse deslumbrante conteúdo, o meu desempenho estava caindo a cada período cursado. Eu não estava me encontrando no curso; não estava suficientemente empolgado com as possibilidades que a profissão me oferecia.

Para minha felicidade, ao mesmo tempo em que caía meu interesse pela arte de projetar espaços, crescia minha curiosidade por outra arte (arte?) que até então me era estranha:

O que diacho era esse tal de design gráfico?

Essa pergunta me fazem até hoje e tenho certeza que por um bom tempo a farão. Naquele ano de 1999 eu fui atrás das respostas (sim, o design trás possibilidades tão diversas e multifacetadas que é natural encontrar conceituações diversas a seu respeito) procurando justamente a coordenadora do curso, que naquela época era a professora Solange Coutinho, uma grande mestra. Foi difícil encontrá-la diante de sua agenda concorrida, mas minha persistência foi recompensada e ela me abriu as portas daquele universo de uma forma tão sincera e clara que daquele dia em diante não tive mais dúvidas em relação ao rumo que minha vida profissional iria seguir. Minto. Tive dúvida em 2007 quando comecei a estudar para o concurso da polícia rodoviária federal. Foi um ato falho.

Entrei no curso de Arte, Design e Multimídia em 2000 na Universidade Tiradentes e concluí minha graduação em 2005, quando o curso já se chamava Design Gráfico e tinha sua grade curricular, estrutura física e corpo docente mais bem consolidados.

Creio que minha ânsia de recuperar o tempo perdido me fez procurar experiências de estágio o quanto antes. Fui introduzido à diversas áreas do design desde o primeiro período do curso, passando por empresas de naturezas variadas. Isso contribuiu para uma formação generalista, mas também permitiu que decidisse logo cedo pelas áreas de atuação que tinha mais afinidade.

Como sempre gostei de desenhar, investi tempo e dinheiro em aperfeiçoamento técnico no ramo da ilustração digital e manipulação/tratamento de imagens. Fiz cursos de modelagem e iluminação 3D, fusão de imagens, desenho humorístico, dentre outros. Mas nenhum desses esforços fazem frente à grande contribuição que meus colegas de sala de aula, professores e companheiros de trabalho deixaram em minha vida profissional.

Modelos 3D do barão vermelho, ilustração para embalagem de farinha láctea e biscoitos.

Faz 15 anos que ganho a vida trabalhando como designer gráfico. Confesso que não foram anos fáceis e que a relação custo-benefício (hora trabalhada/remuneração) não joga a nosso favor na maior parte do tempo, por uma série de fatores. Porém, me sinto obrigado a dividir com ex-alunos e colegas de ofício que a paixão que tenho pelo ato de projetar e desenhar me levou a situações que nunca imaginei alcançar e tem proporcionado momentos genuínos de prazer e realização.

Identidade de marca da Dos Anjos – Bolos e Pães Artesanais.

Hoje, atuo como designer gráfico, ilustrador e artista 3D. Sou autônomo, mas aprendi muito nas três experiências societárias que tive na Bend PropagandaAgreg Design e Stagio1.

Esses primeiros 15 anos de design foram de um aprendizado intenso, pincelados muitas vezes por momentos frustrantes, porém, de lá pra cá nunca tive a impressão de estar regredindo. Aliás, tenho orgulho de conseguir viver única e exclusivamente de design.

O que tenho a dizer a meus ex-alunos é que fui exigente em relação à cobrança por bons resultados nas atividades propostas porque queria viver os próximos 15 anos na companhia de profissionais sérios e preparados para resolver, da forma mais profissional, coerente e lúcida possível, os problemas de design que nos forem apresentados.

Até o futuro!

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